sábado, 15 de outubro de 2016

Redes de comunicação e saúde: somos afetados nas (e pelas) relações. Para (se) submeter ou compor?

Em 11.10.16 aconteceu a segunda aula do curso “Comunicação e Saúde: espaços, estratégias e atuação” promovido pela Associação Paulista de Saúde Pública - APSP. Ricardo Teixeira, docente do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), grande amigo e parceiro da Rede HumanizaSUS, nos convidou a refletir sobre “Redes de Comunicação e Saúde”. 



Embora contente com a perspectiva de mais uma aula deliciosa, na companhia de velhos e novos amigos, cheguei afetada por um certo desânimo, ainda sob o forte impacto da aprovação da PEC 241/2016 em primeiro turno na Câmara dos Deputados no dia anterior (1). Mas como a luta é sempre constante, me compus junto aos companheiros para pensar sobre saúde e comunicação em mais uma aula. 

Ricardo começa explicando que abordará a comunicação sob o enfoque das relações. Nos lança uma primeira pergunta: por que a comunicação nos move para fazer cursos e pesquisar o tema, por que a comunicação é um problema? Cada participante foi colocando suas ideias: as barreiras à comunicação dialógica entre usuários e gestores do SUS, a falta de acesso à internet, os diferentes signos de linguagem, as diversas ferramentas de comunicação (e-mail, telefone, etc). Perspectivas de dificuldades de comunicação, e uma reflexão linda de uma das participantes: “é muito complexo! O mundo todo é uma comunicação, até durante a gestação já temos um elo de comunicação com o bebê”. 

Instrumentos, meios, canais de comunicação. Abordagens instrumental e transmissionista da comunicação aparecem como um primeiro plano de problema da comunicação. Mas a nossa conversa hoje, acolhendo também essa complexidade, pretende trabalhar a partir de um outro plano. A ideia é radicalizar para refletir sobre a comunicação como uma forma de pensar os nossos problemas humanos, uma forma de pensar a saúde. Uma pegada mais filosófica da comunicação.

Ricardo vai nos dizendo que o problema da comunicação é produzir um comum – radical da palavra comunicação – entre nós. Há um comum entre nós? O problema da comunicação é produzir um comum onde não há nenhum comum entre as pessoas. Um grande paradoxo! Precisamos produzir um comum para a sobrevivência da espécie e este comum não está dado, é uma construção. A produção de uma comunidade – palavra também radicada do comum. Como podemos levar uma vida em comum e constituir uma comunidade?

Vivemos um modo de produção e de existência no capitalismo que parece minar ainda mais as possibilidades de vida em comum. Índios e ciganos foram exemplos de comunidades trazidas por um dos participantes em que o arranjo não individualista favorece a produção desse comum.

E daí partimos para uma espécie de deriva. Redes, vamos falar de redes, o tempo todo falamos de rede: redes sociais, redes de saúde, redes. Mas o que são de fato redes? Uma reflexão a partir de uma espécie de ideograma e de uma definição (bastante abstrata segundo Ricardo, por ser muito geral e abarcar muitas ideias dentro dela) – seguindo o pensar filosófico, vamos pensando por conceitos.





Rede é multiplicidade. Qualquer multiplicidade? Uma multiplicidade pode ser um agrupamento sem ser uma rede. Rede é uma multiplicidade conectada de agenciamentos. Agência, agir. Rede é uma multiplicidade conectada de pontos que agem. Agenciamento traz a ideia de um arranjo de uma coletividade em si mesmo. Uma rede é multiplicidade conectada de…..redes! Uma dobra! Cada nó da rede é um agente. Finalmente, a rede é uma multiplicidade conectada de agenciamentos heterogêneos.

Rede de atenção básica, rede de serviços de emergência, etc, tratam de elementos homogêneos. O grande desafio da comunicação não é produzir redes temáticas (homogêneas), não é uma questão de logística, mas produzir redes territoriais. Um grande desafio do SUS é a rede funcionar como rede. A resposta tem sido instrumental. Mas vamos sair dos nossos exemplos conhecidos, vamos nos tolher os vícios da forma de refletir.

Pensando no corpo como uma rede: nosso corpo pode ser considerado uma multiplicidade conectada de elementos heterogêneos, uma multiplicidade de órgãos, de células, e assim vai. Ainda que pareça, Ricardo não é só coração, e nós participantes não somos apenas ouvidos. E pensando numa sociedade, somos uma rede de corpos conectados por agenciamentos. Pronto, fomos capturados pelo pensamento filosófico!
 
Todo corpo é composto de partes menores extensíveis que estão juntas entre si numa dada relação entre elas. As coisas individuais não vão para uma relação, mas são compostas a partir dessa relação. Essa é uma maneira de pensar invertida, própria de filósofos marginalizados, entre eles Spinosa, grande inspiração desse pensamento da relação como subjacente à subjetividade.


 Rede é uma multiplicidade conectada de agenciamentos heterogêneos: conjunto de partes extensíveis numa dada relação conectada por agenciamentos a outro(s) conjunto(s) de partes extensíveis numa dada relação


O que se passa num encontro entre os corpos? Comunicação é o encontro entre corpos, não apenas de ideias e saberes (concepção cognitiva) mas também entre afetos, reações emocionais que provocamos um no outro. Somos corpos movidos por desejo, flutuamos o tempo todo entre as emoções. Os meios de comunicação de massa funcionam no país atualmente como uma máquina de entristecimento.

O que acontece quando uma pessoa se sente insatisfeito com um ouvidor que nem o olha nos olhos? Não se produziu uma relação neste momento. Como ressignificar uma condição socialmente estigmatizada como no caso de pacientes com AIDS? A turma foi entrando nessa forma de pensar, tentando formular novos problemas. E o debate seguiu durante a aula.

E Ricardo foi compondo os conceitos apresentados com os exemplos trazidos pelos participantes, para percebermos que o problema de comunicação é o tempo todo tentarmos subordinar o outro à nossa relação, e não produzir relações de composição entre nós, que o tempo todo a sociedade capitalista nos expropria. O problema da comunicação é um problema político. E não existe solução definitiva e única para este problema.

A comunicação está intimamente ligada a tecnologias de governo da vida, que incidem no corpo. A potência se restaura no encontro com os outros numa relação de composição, e não de submissão, de decomposição de nossos corpos.

Retomando a minha reflexão da aula passada sobre a legitimação (ou deslegitimação) do interlocutor a partir do contato pessoal com a experiência prática da doença, é possível pensar que o questionamento das prescrições médicas pode também ser entendido como uma força de resistência da pessoa no que lhe é mais peculiar (seu modo de viver) à submissão que quase sempre se estabelece na relação profissional de saúde-paciente.

Quanto à PEC 241, estava capturada pela máquina de entristecimento midiática, pela sensação de impotência e desespero em função da perspectiva de aniquilamento simbólico e material do sistema público de saúde, com redução progressiva do financiamento nos próximos 20 anos. Mas depois da aula (e de uma deliciosa conversa no bar com algumas pessoas da turma) lembrei das inúmeras e crescentes manifestações de protesto contra o projeto nas redes sociais, e percebi que através dessas mobilizações estamos nos compondo enquanto sociedade que defende a justiça social, estamos produzindo um comum na luta pelos direitos sociais.


(4) Artigo de Ricardo Teixeira “As dimensões da produção do comum e a saúde”: http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v24s1/0104-1290-sausoc-24-s1-00027.pdf




Debate durante a aula a partir da concepção filosófica do processamento industrial de um hambúrguer e analogia com o lugar do usuário na relação com trabalhadores e gestores do SUS na construção do sistema de saúde: da mesma forma que o hambúrguer é o boi submetido à relação de processo de fabricação, a vida do usuário é submetida aos processos, procedimentos e fluxos dos serviços de saúde formulados e implementados por gestores e trabalhadores (a relação é de submissão em ambos os casos). 

Na Rede HumanizaSUS e em outras redes de saúde, os usuários estão numa relação de composição com os demais atores do sistema, e participam da construção e debate da saúde pública. Na RHS sou boi como os demais, não sou hambúrguer. Na RHS sou vaca sagrada, e vaca profana!

Nenhum comentário:

Postar um comentário