domingo, 27 de maio de 2018

Qual a relação entre a prisão do dono da Dolly, o preço das insulinas e o monopólio comercial?

No dia 10 de maio o dono da empresa brasileira de refrigerantes Dolly foi preso sob a acusação de fraude fiscal, por demitir e recontratar funcionários, manobra legal que vem sendo amplamente utilizada por inúmeras empresas após a reforma trabalhista. Na ocasião de sua prisão, o empresário Laerte Codonho segurava um cartaz dizendo "preso pela Coca-Cola", que exerce o monopólio mundial do comércio de refrigerantes. Codonho há muito tempo denuncia práticas de concorrência desleal da Coca-Cola, e já fez campanhas publicitárias ressaltando a Dolly como uma produção nacional que disputa o mercado de bebidas com empresas estrangeiras. Mas o que tudo isso tem a ver com as pessoas com diabetes?

Em 1986, quando então eu contava com 09 anos de idade, fui diagnosticada com diabetes tipo 1. Nunca fui muito fã de refrigerantes, mas o fato é que nessa idade e naquela época, em todas as festinhas de aniversários de amigos e demais comemorações, era esta a principal - senão a única - opção de bebida para crianças. Sucos naturais e sem açúcar não integravam o cardápio dos eventos festivos.

Como não havia refrigerantes sem açúcar à disposição no mercado brasileiro, meu endocrinologista dizia para eu optar pela água com gás caso sentisse muita vontade de tomar refrigerante, conselho que eu desprezava solenemente por conhecer as grandes diferenças entre uma bebida e outra.

Algum tempo depois do meu diagnóstico, o primeiro refrigerante sem açúcar entrou no mercado brasileiro, era o nacional "Diet Dolly". Até hoje me lembro da satisfação em ter uma opção de bebida nas festinhas, que não provocava mal-estar físico em função da elevação glicêmica, ou mal-estar social pela necessidade de justificar o impedimento de beber refrigerante doce por ser portadora de diabetes. Somente depois do lançamento do Diet Dolly é que a Diet Coke começou a ser comercializada no Brasil, configurando a disputa do mercado de refrigerantes dietéticos entre duas empresas, uma nacional e outra internacional.

Na época, o SUS estava ainda sendo criado e organizado, e as pessoas com diabetes não eram amparadas por uma política de assistência farmacêutica gratuita (o que só aconteceu depois da edição da Lei nº 11.347/2006 e da Portaria nº 2.583/2007 do Ministério da Saúde), mas a insulina era produzida no Brasil pela empresa nacional Biobrás, vendida pelo governo Fernando Henrique Cardoso nos anos 90 para a dinamarquesa Novo Nordisk que, junto com a Eli Lilly e Sanofi-Aventis, exerce o monopólio mundial da produção do medicamento.

Desde novembro de 2016, a Associação Americana de Diabetes (ADA - American Diabetes Association) vem fazendo uma campanha em prol da redução dos preços das insulinas, questionando a falta de transparência das produtoras na estipulação dos preços do medicamento. Trabalhos de uma comissão de investigação sobre o assunto do senado americano concluíram que as farmacêuticas estão aumentando o preço das insulinas sem existir uma correlação entre os custos de produção e de taxação (leia sobre o assunto nestes links, em inglês: http://www.diabetes.org/newsroom/press-releases/2018/insulin-affordability-white-paper-release.html e https://www.chaindrugreview.com/pcma-ada-white-paper-confirms-drugmakers-set-raise-insulin-prices/). Ou seja, os altos valores das insulinas em todo o mundo não são resultado dos impostos ou das leis de proteção dos trabalhadores aplicados pelos países, mas do monopólio do mercado pelas farmacêuticas. De forma simplificada, as empresas cobram o quanto querem dos consumidores (incluindo os Estados) porque são as únicas produtoras em atividade no mercado.

No início deste ano, beneficiários de ordens judiciais de fornecimento das insulinas fabricadas pela Novo Nordisk de São Paulo deixaram de receber o medicamento em função de uma queda de braço entre a Secretaria do Estado da Saúde e a empresa que, através de estratégias legais (não comparecimento ao pregão com preço fixo), pretendia obrigar o Estado a pagar um valor maior que o praticado no mercado, justamente por saber da obrigatoriedade de aquisição em função dos processos judiciais. E parece que conseguiu.


Mensagens de emails trocadas com a equipe de mídias da SES-SP


Voltando para a prisão do dono da Dolly, único perseguido em função de um expediente (abominável, é certo!) utilizado por inúmeros empresários com a benção da reformada (melhor seria dizer deformada) legislação trabalhista, o enfraquecimento da marca nacional no mercado de refrigerantes só tem uma beneficiária, a Coca-Cola, que consolidando o monopólio da venda da bebida aos brasileiros poderá também exigir o preço que quiser dos consumidores, muitos deles pessoas com diabetes. 

Refrigerantes não são produtos assim tão caros, nem benéficos à saúde. Mas as insulinas são medicamentos essenciais à sobrevvivência de muitas pessoas com diabetes. O monopólio do mercado pelos grupos empresariais imperialistas internacionais prejudica o acesso das pessoas com e sem diabetes às opções de tratamento, e sobrecarrega o orçamento dos Estados que garantem a saúde como direito universal, como é o caso do Brasil.

A militância em diabetes no Brasil tradicionalmente busca assegurar direitos perante o Estado, mas raramente atua em face da indústria farmacêutica. Precisamos começar a debater as práticas das empresas fabricantes de medicamentos e insumos de diabetes, e lutar contra os preços abusivos desses produtos.


Para saber mais sobre a relação entre a prisão do dono da Dolly e o imperialismo: https://www.causaoperaria.org.br/caso-dolly-para-golpistas-brasil-deve-se-tornar-colonia-absoluta-do-imperialismo/


Observação: agradeço a contribuição da companheira Sheila Vasconcellos (do blog "Histórias de Hipoglicemia", da fanpage "Histórias de uma Diabética" e da revista "Em Diabetes") com o compartilhamento da notícia sobre os trabalhos da ADA junto ao senado americano.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Defeitos de glicosímetros não serão analisados na consulta pública da Prefeitura de São Paulo

Em 08.05.18 foi publicado no Diário Oficial do Município de São Paulo a abertura de consulta pública referente ao processo licitatório para fornecimento de tiras reagentes para monitorização da glicose e de glicosímetro correspondente. Como uma boa parte dos aparelhos distribuídos pela Prefeitura desde novembro de 2017 apresentaram defeito de acurácia, conforme denunciado pelos usuários nas redes sociais, a militância se alvoroçou, acreditando tratar-se de uma consulta pública para recebimento de experiências com glicosímetros, como uma resposta da gestão municipal às reclamações dos usuários.




Mas sabendo que o diálogo e o atendimento às demandas da sociedade não são exatamente a marca da gestão Doria/Covas, e percebendo algumas incongruências nessa consulta pública, relatadas no post "Consulta pública de glicosímetros: o cavalo de Troia da Prefeitura para as pessoas com diabetes de São Paulo", questionei diretamente a Prefeitura de São Paulo por twitter e por email, solicitando os seguintes esclarecimentos:









Em algumas horas a Prefeitura do Município de São Paulo respondeu parte dos meus questionamentos. Por email, a funcionária da PMSP Meire Freitas informou que "As Consultas Públicas dentro do âmbito deste município são regidos pelo Decreto Municipal 48.042/2006. Para os casos em que o valor estimado para aquisição de bens ou da execução de um serviço ultrapasse R$12.000.000,00, ou pela pertinência e complexidade do objeto. Neste caso, está sendo feita a consulta pública pelo valor do objeto. Para tanto, todos os atos da consulta pública seguirão os ditames deste Decreto."



A norma mencionada (Decreto Municipal n º 48.042/2006) institui a consulta pública nas licitações realizadas pelos órgãos da Prefeitura do Município de São Paulo. O artigo 5º do Decreto estabelece que "As críticas e sugestões enviadas deverão, obrigatoriamente, estar devidamente identificadas, com indicação das cláusulas, itens e subitens do edital a que se referirem, acompanhadas da argumentação que a justifique, sobre as quais o órgão licitante fará a respectiva análise". Não se trata, portanto, de uma consulta pública para ouvir as experiências dos usuários com os glicosímetros, mas para receber observações acerca das cláusulas do edital do pregão. Isso ficou ainda mais claro com as respostas enviadas pela PMSP através do twitter:









Portanto, os usuários não devem enviar relatos de experiência com glicosímetros para esta consulta pública, pois ela não se destina a isso. Mas os usuários podem continuar registrando suas reclamações perante a 
ANVISA e a ouvidoria central da saúde da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, bem como exigindo a troca do aparelho defeituoso na Unidade Básica de Saúde onde está cadastrado, conforme manifestação expressa da Prefeitura do Município de São Paulo que "todos os aparelhos com defeito comprovado serão recolhidos e substituídos". Para comprovar o defeito, leve registro de comparação entre o resultado do glicosímetro e resultado de exame de sangue que demonstre a disparidade entre eles.

Registro uma vez mais que o meu aparelho (assim como de outras pessoas) funciona perfeitamente. O problema não parece ser defeito do projeto do glicosímetro, mas o número grande de unidades defeituosas, que devem ser trocadas nas Unidades Básicas de Saúde.

Em resumo, seguimos firmes e fortes com o glucoleader em São Paulo! Cabe então exigir da PMSP que facilite a troca dos glicosímetros com defeito, pois está previsto no contrato entre a Prefeitura e a empresa Iquego a substituição das unidades defeituosas, e porque as pessoas com diabetes não podem se sujeitar a erros de acurácia que comprometem sua saúde e sua vida.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Consulta pública de glicosímetros: o cavalo de Troia da Prefeitura para as pessoas com diabetes de São Paulo

O autocuidado de pessoas com diabetes envolve uma série de procedimentos e também o uso de insumos e medicamentos para controle da glicemia. Para quem aplica insulina um dos insumos essenciais é o glicosímetro, que indica a taxa de "açúcar" no sangue da pessoa. O aparelho auxilia na adaptação das doses de insulina conforme o tipo e quantidade de alimentação e de atividades desenvolvidas ao longo do dia, bem como no controle da queda e elevação glicêmica (hipoglicemia e hiperglicemia), que pode levar o paciente ao coma e à convulsão, respectivamente.


Em 2005, a Prefeitura de São Paulo iniciou a implantação do Programa de Autonomonitoramento Glicêmico (AMG), através do qual os usuários do SUS insulino-dependentes recebem glicosímetro, tiras e lancetas para acompanhamento e controle glicêmico. Sempre experimentamos problemas com o fornecimento dos insumos, mas o desabastecimento nunca durou mais de um mês. No início da gestão Doria, entretanto, as fitas medidoras e as lancetas não foram fornecidas por mais de 3 meses. Apenas em abril a dispensação foi regularizada, mas parcialmente, em número inferior à demanda. Na minha Unidade Básica de Saúde, UBS Dr. Humberto Pascalli, no bairro da Santa Cecília, o consumo médio mensal (CMM) equivale a 71 mil tiras e lancetas, mas a unidade recebia entre 20 a 40 mil, e em meses alternados. O problema só foi solucionado por completo no final de 2017, quando se iniciou a troca da marca dos glicosímetros e das tiras medidoras após pregão realizado em novembro de 2017.

Embora solucionado o desabastecimento, outros problemas surgiram. Além de irregularidades na execução do contrato entre a Prefeitura e a fabricante, investigadas pelo Tribunal de Contas do Município de São Paulo, muitos dos novos glicosímetros distribuídos apresentaram defeito de acurácia, conforme denunciado pelos usuários nas redes sociais. Como a ANVISA ainda não realiza o teste de acurácia dos glicosímetros liberados para comercialização no Brasil, não é possível saber se o aparelho é defeituoso em seu projeto ou apenas nas unidades que apresentam disparidade de medidas. Uso este glicosímetro fornecido pela Prefeitura, e as medidas são consonantes quando comparadas com outros dispositivos de medição de glicemia. Ao que tudo indica, o problema reside no grande número de glicosímetros defeituosos, e na recusa de algumas unidades de saúde em fazer a troca por outro (prevista no contrato firmado com a Prefeitura) quando solicitada pelos usuários.

Em razão do grande número de reclamações dos usuários, aproveitando a realização de novo pregão para aquisição de tiras, lancetas e glicosímetros, a Prefeitura de São Paulo abriu uma consulta pública (CONSULTA PÚBLICA Nº 008/2018-SMS.G), vigente entre 08/05/18 e 11/05/18, para receber manifestações das pessoas com diabetes que usam glicosímetros para o cuidado em saúde.




A princípio, parece uma ideia interessante abrir o processo licitatório ao controle e participação social. Mas esta consulta pública, da forma como está conduzida, parece ser um novo problema. Apresento os motivos usando como comparação as consultas públicas da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao SUS (CONITEC), órgão do Ministério da Saúde com larga experiência na utilização dessa ferramenta de participação social:


- prazo de 4 dias para envio das manifestações: o tempo da consulta pública é muito curto, insuficiente à adequada, ampla e eficaz divulgação e coleta de contribuições da sociedade (ainda que seja este o padrão, conforme se verifica nas demais consultas públicas da PMSP). O prazo das consultas públicas de incorporação de tecnologias ao SUS é de 20 dias, que pode ser prorrogado se o caso exigir;





- divulgação nula da consulta pública: olhando as páginas da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo nas redes sociais (facebook, twitter e instagram), se constata que em nenhuma delas a consulta pública em questão foi divulgada. A divulgação se deu apenas através do Diário Oficial do Município, que ninguém lê. As consultas públicas de incorporação de tecnologias ao SUS são amplamente divulgadas pelas redes sociais (no perfil do twitter da CONITEC há publicações sobre diversas delas) e também através do envio de e-mails aos assinantes do mailing da Comissão;

- associação obscura entre um pregão e uma consulta pública: se o resultado do vencedor do pregão não é conhecido por antecipação, enviaremos contribuições falando exatamente o que? Sobre a experiência com todos os glicosímetros que usamos na vida, ou apenas com aqueles referentes aos modelos/marcas que participam do pregão? E como saberemos quais estão participando do pregão antes dele acontecer? Além disso, no edital do pregão não há qualquer menção à consulta pública, ou seja, não existe relação entre o resultado do pregão e envio de manifestações dos usuários.

- possibilidade de acompanhamento dos resultados: a Prefeitura não indica como os usuários poderão conferir a quantidade e o teor das contribuições enviadas. Onde essas manifestações serão arquivadas? Serão disponibilizadas à sociedade? Nas consultas públicas da CONITEC, após encerramento do prazo de vigência, os depoimentos e respostas ao questionário são disponibilizados ao público numa página própria. No caso da consulta pública de incorporação de bomba de insulina, por exemplo, podemos conferir os resultados nesta página: http://conitec.gov.br/images/Consultas/Contribuicoes/2018/CP_CONITEC_08_2018_Experiencia_Opiniao_Bomba_de_insulina_para_diabetes_mellitus_tipo_1.pdf. No site da PMSP não há qualquer campo para visualização das contribuições recebidas nas consultas públicas;



- ausência de regulamentação: que procedimento está sendo seguido pela Prefeitura de São Paulo nesta consulta pública, que normas regulamentam o processo? Isso não é informado aos usuários para que possam conferir se a consulta pública respeita as regras de participação, se é que essas regras existem. As consultas públicas da CONITEC seguem as normas previstas na Lei Federal n° 12.401/2001 e no Decreto n° 7.646/2011, que especificam em detalhes as etapas do processo de incorporação de tecnologias e as normas de realização das consultas públicas;


- indicação do endereço errado para envio das contribuições: na publicação do Diário Oficial o endereço eletrônico indicado para envio das manifestações é 1CJLSMS@PREFEITURA.SP.GOV.BR, mas o correto é: meirefreitas@prefeitura.sp.gov.br

 Prefailed


Tudo indica que essa consulta pública é um cavalo de Troia ofertado pela Prefeitura às pessoas com diabetes de São Paulo, uma falsa abertura do processo de aquisição de glicosímetros ao controle social, uma arma contra os próprios usuários, como argumento de suporte de uma decisão não aprovada pela população, mas que ganhará essa característica (ainda que que pela alegação de omissão na consulta pública) caso não questionada. Ou, numa outra hipótese, será uma desculpa para garantir o monopólio da empresa Roche no fornecimento dos insumos de diabetes à Prefeitura de São Paulo, mantido por dez anos antes da substituição dos glicosímetros. Mas o que essa consulta pública indica mesmo é que a gestão Doria/Covas não tem qualquer compromisso com a saúde dos paulistanos com (e sem) diabetes, e que o golpe está disseminando como prática no Brasil, já que essa consulta pública de participação social tem pouco ou nada.

Assim, devemos não apenas enviar nossos relatos de experiência ao endereço eletrônico indicado (
meirefreitas@prefeitura.sp.gov.br), mas também questionar os reais objetivos dessa consulta pública, perguntando à Prefeitura Municipal de São Paulo através de email, twitter, facebook e instagram:

- As contribuições devem envolver exatamente o que? Nossa experiência com todos os glicosímetros que usamos na vida, ou apenas com aqueles referentes aos modelos/marcas que participam do pregão? E como saberemos quais estão participando do pregão antes dele acontecer? Qual a relação entre o resultado do pregão e envio de manifestações dos usuários?

- Onde essas manifestações serão arquivadas? Serão disponibilizadas à sociedade? Se sim, onde?

- Que procedimento está sendo seguido pela Prefeitura de São Paulo nesta consulta pública, que normas regulamentam o processo?

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Dia Mundial da Saúde em SP tem caminhada noturna e debate de articulação entre conselhos e movimentos sociais

Em 07 de abril se comemora mundialmente o Dia Internacional da Saúde, criado pela Organização Mundial de Saúde com o objetivo de debater os assuntos relacionados à saúde considerados prioritários pela entidade, que reúne 194 Estados-membros, entre eles o Brasil. Neste ano de 2018 o tema escolhido foi "Saúde universal: para todos, em todos os lugares", para refletir sobre a necessidade de acesso à saúde universal e seus benefícios, como forma de garantir a todas as pessoas o acesso aos cuidados em saúde quando precisam, onde quer que estejam. Uma clara preocupação (embora não mencionada na campanha oficial da OMS) com os efeitos deletérios na área de saúde das políticas neoliberais restritivas de direitos que avançam em todo o mundo.

Na atual conjuntura de golpe de Estado no Brasil, origem de inúmeros retrocessos no acesso à saúde  - como o congelamento dos investimentos federais em saúde pelos próximos 20 anos, privatização e precarização do sistema de saúde (projeto dos "planos acessíveis", fim dos blocos de financiamento que favorece o arbítrio dos governos regionais na organização da atenção em saúde, reestruturação dos serviços conforme a lógica capitalista de mercado, e entrega da gestão a organizações sociais privadas sem compromisso com os princípios do SUS, entre outras medidas) - o Dia Mundial da Saúde constitui-se em mais um dia de luta dos movimentos sanitários em defesa da saúde pública, universal, integral, equânime, descentralizada e com participação social, em defesa do SUS enquanto sistema de garantia da saúde como direito no Brasil.

Na cidade de São Paulo, enfrentamos sérias dificuldades ao acesso e ao cuidado qualificado em saúde em função da ampliação da influência das organizações sociais privadas na gestão dos serviços e do projeto de "reestruturação" (medida da gestão Doria bem semelhante à "reorganização" das escolas do governo Alckmin) com fechamento de unidades e outras propostas que agravarão os problemas de acesso à saúde no município.

Diante desses e outros retrocessos, é imprescindível a mobilização popular contra os ataques do governo golpista - que no Estado e no Município de São Paulo conta com o alinhamento dos governos estadual e municipal - ao direito de acesso à saúde por todas as pessoas em qualquer lugar do país. Num cenário de enorme enfraquecimento das instituições democráticas brasileiras, conferir efetividade à participação social no SUS é um desafio que exige a articulação entre conselhos, movimentos populares, ativistas, trabalhadores, usuários e gestores do SUS, e toda a sociedade civil, na luta contra o avanço do capital sobre o SUS, maior e melhor política pública do Brasil.

Pensando na necessidade de fortalecimento dos Conselhos de Saúde, e de maior articulação entre os conselheiros de saúde das diversas instâncias, bem como entre esses conselheiros e demais órgãos institucionais de controle social (Ministério Público, Tribunal de Contas, etc) e a sociedade em geral, a Plenária Municipal de Saúde de São Paulo promoverá o seminário "Democracia, Participação e Controle Social no SUS" no próximo dia 07 de abril, um debate sobre a situação da saúde no Município e no Estado de São Paulo e no Brasil, e sobre como a participação social pode contribuir para a melhoria dos serviços de saúde na cidade. Ainda, para pensar em estratégias conjuntas de enfrentamento do golpe e dos projetos de precarização e privatização do SUS, nos âmbitos regional e nacional.

O evento contará com a participação de Jupiara Castro (Conselho Nacional de Saúde), Sheila Ventura Pereira e Maxwel M. Moraes (Conselho Estadual de Saúde de São Paulo), Dora Martin Strilicherk (Ministério Público de São Paulo), Jorge Kayano (Instituto Polis), e de representantes do Conselho Municipal de Saúde, do Tribunal de Contas do Município e da Central de Movimentos Populares de São Paulo (nomes a confirmar). Haverá ainda depoimentos de antigos conselheiros, que compartilharão suas experiências na luta em defesa da saúde pública e do SUS em São Paulo. Na última mesa serão debatidos os principais desafios do momento atual no Município de São Paulo, visando a articulação entre conselheiros e demais atores da participação social e a criação de estratégias de defesa do SUS, e contra o golpe de Estado no Brasil. A plateia poderá fazer perguntas e se manifestar ao final de todas as três rodadas de apresentações. 

Data e horário: 07/04/18 - das 09h00 às 13h00
Local: Rua São Bento, 413, Centro, São Paulo - Salão Azul dos Bancários (Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região) - próximo à estação São Bento do metrô)

Haverá transmissão online do debate pelo canal do youtube da Radio Web Saúde USP: https://www.youtube.com/channel/UCb1NaM1oLR6kVpezUiM4OYQ, e pela sala de eventos da Rede Humanizasus: http://redehumanizasus.net/sala-de-eventos/



Dois dias antes, em 05 de abril, também integrando as atividades do Dia Mundial de Saúde promovidas pela Plenária Municipal de Saúde de São Paulo, acontecerá a caminhada noturna no centro de São Paulo, com saída do Teatro Municipal de São Paulo às 20h00. Passando por vários edifícios e construções relacionadas à história da saúde pública na cidade e no país, os participantes poderão entender melhor o processo de construção da saúde como direito no Brasil através da arquitetura paulistana e ainda refletir sobre os determinantes sociais da saúde, além de se beneficiarem com uma atividade física leve de duas horas que faz bem à saúde!





domingo, 11 de março de 2018

CONITEC recebe contribuições para Consulta Pública sobre bomba de insulina para DM1 até 19/03/18

Em 27.02.2018 a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS - CONITEC, do Ministério da Saúde do Brasil, abriu Consulta Pública sobre a incorporação de bomba de insulina para tratamento de segunda linha (alternativa terapêutica após a tentativa de controle da glicemia com a terapia tradicional sem sucesso) de pacientes com diabetes mellitus tipo 1 (DM1). Até o dia 19/03/18, gestores, trabalhadores e usuários do SUS, profissionais da saúde, pacientes, familiares e cuidadores de pessoas com diabetes, assim como pesquisadores em saúde, poderão contribuir enviando manifestações e depoimentos para influenciar a recomendação final da CONITEC.

A recomendação inicial da CONITEC foi de não incorporação, por entender que não ficou demonstrada ou comprovada a superioridade da terapia com bomba de infusão de insulina em relação ao tratamento
com múltiplas doses de insulina (MDI), ou seja, que a bomba de insulina não proporciona melhor controle glicêmico e qualidade de vida que a terapia com MDI, o que não corresponde à experiência prática de quem usa essa tecnologia. Em relação aos custos, a CONITEC entende que os cálculos apresentados pela demandante (Roche Diabetes Care Brasil LTDA) se baseiam em referências equivocadas e sem clareza. Leia a análise da CONITEC na íntegra nos seguintes links:

Relatório Técnico: http://conitec.gov.br/images/Consultas/Relatorios/2018/Relatorio_BombaInfusao_Insulina_CP08_2018.pdf

Relatório para a Sociedade (versão resumida do Relatório Técnico, em linguagem mais acessível aos pacientes): http://conitec.gov.br/images/Consultas/Relatorios/2018/Sociedade/ReSoc82_BOMBA_INSULINA_diabetes_tipo1.pdf

 
Esta recomendação inicial pode ser revista pela CONITEC. Os cidadãos podem contribuir para tanto, emitindo suas sugestões e comentários sobre a proposta de inclusão da terapia com bomba de insulina para tratamento de segunda linha de pessoas com diabetes tipo 1 pelo SUS, assim como sobre a recomendação inicial proferida pela CONITEC. E nós pacientes que usamos bomba de insulina podemos e devemos compartilhar nossa experiência prática com esta tecnologia para fornecer subsídios à incorporação. Por isso é tão importante que todos os usuários de bomba de insulina (assim como cuidadores de usuários) participem dessa Consulta Pública!

 
As contribuições devem ser inseridas através de formulário eletrônico do portal da CONITEC. Nesta Consulta Pública há dois formulários disponíveis:

• Formulário de experiência ou opinião: para considerações sobre experiências práticas com a doença ou a tecnologia em questão, provenientes tanto de pacientes, cuidadores, amigos, familiares ou profissionais de saúde;

• Formulário de contribuição técnico-científica: para considerações sobre o relatório técnico-científico, para opinar e adicionar novas informações técnicas provenientes de estudos, livros técnicos, etc.


Acesse neste link o formulário de experiência ou opinião: http://formsus.datasus.gov.br/site/formulario.php?id_aplicacao=37250

Acesse neste link o formulário de contribuição técnico-científica: http://formsus.datasus.gov.br/site/formulario.php?id_aplicacao=37249


Após fornecer alguns dados pessoais (como Estado de origem, email, e telefone) no formulário de experiência ou opinião, pacientes, cuidadores, amigos, familiares ou profissionais de saúde devem responder no item 6 se concordam com a recomendação da CONITEC. Lembrando que neste caso a CONITEC recomendou a não incorporação, se a pessoa responder que "sim" estará defendendo o não fornecimento de bomba de insulina pelo SUS, e se responder que "não" estará defendendo o fornecimento de bomba de insulina pelo SUS. Portanto: 
sim = não à bomba de insulina pelo SUS 
não = fornecimento de bomba de insulina pelo SUS.


Em seguida, no item 7, há um espaço para comentários, onde é possível compartilhar as nossas experiências de forma mais detalhada. E que informações nós pacientes podemos fornecer para influenciar a recomendação final da CONITEC? Este pode ser um roteiro a ser seguido na redação do depoimento:

- Quanto à natureza do diabetes tipo 1: quais os sintomas associados à doença, e que dificuldades eles trazem para a vida da pessoa tratada com múltiplas injeções diárias (hipoglicemias normais, hipoglicemias graves, hipoglicemias pós-prandiais, e hipoglicemias noturnas, por exemplo);

- Quais as limitações que o diabetes tipo 1 tratado com MDI impõe à vida cotidiana, habilidade para trabalhar, vida social, satisfação dos familiares e amigos;

- O impacto sobre o controle glicêmico e o bem-estar social e mental da pessoa com diabetes com bomba de infusão de insulina;

- Dificuldades do tratamento e controle da glicemia usando MID (constantes episódios de hipoglicemia em determinado horário em função da impossibilidade de doses diferenciadas de insulina basal durante o dia e a noite, por exemplo);

- Se o diabetes tratado com MDI impede a pessoa de cumprir o seu papel escolhido na vida;

- Caso haja complicações em decorrência do diabetes e/ou de tratamentos anteriores: como a complicação interfere nas atividades diárias, e se houve algum benefício relacionado à regressão ou estacionamento da evolução da complicação após o tratamento com bomba de insulina, por exemplo;

- Aspectos do diabetes que o paciente acha mais difíceis de lidar;

- Quais benefícios o tratamento com bomba de insulina traz para a vida do paciente;

- Como esses benefícios se comparam em relação ao tratamento com MDI;

- Se a bomba de insulina ajuda a pessoa com diabetes a viver melhor e mais segura em relação aos riscos de complicações em função do descontrole da doença.  


É importante incluir também a experiência dos cuidadores e familiares, como eles são afetados pelo diabetes do paciente, podendo assim, trazer informações de como a inclusão da bomba de insulina para DM1 tornaria a vida diferente para o(s) cuidador(es) e para o(s) familiar(es).

 
Se você não quiser fazer um texto como comentário, poder apresentar estas mesmas informações em resposta aos itens 8 e 9, respectivamente sobre experiência com o produto em avaliação (bomba de insulina) e com outro(s) medicamento(s) e/ou produto(s) para esta doença (diabetes tipo 1).


Esta é uma oportunidade de participarmos do aperfeiçoamento da política pública de saúde direcionada às pessoas com diabetes tipo 1. Quanto mais pessoas contribuírem, maior a quantidade de dados para análise da CONITEC.

Vamos todos contribuir para que a recomendação final da CONITEC reflita o interesse da sociedade: que os benefícios sentidos na prática em relação ao controle da glicemia e à melhoria da qualidade de vida por quem usa a bomba de insulina sejam extensíveis a todas as pessoas no Brasil, através do fornecimento gratuito pelo SUS!


Envie sua contribuição à CONITEC, e participe da construção da política pública de saúde para atendimento de necessidades de saúde diferenciadas de pessoas com diabetes tipo 1, e para o aperfeiçoamento do SUS!




Referência:

Manual "Entendendo a incorporação de tecnologias em saúde no SUS: como se envolver", publicado pelo Departamento de Gestão e Incorporação de Tecnologias em Saúde da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde: http://conitec.gov.br/images/Artigos_Publicacoes/Guia_EnvolvimentoATS_web.pdf

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

SUS, 30 anos: Outras Palavras lança Outra Saúde, um site dedicado ao jornalismo sobre saúde pública

Compartilho texto de divulgação do site "Outra Saúde", que parece ser uma iniciativa bem interessante em termos de disputa de narrativas sobre a saúde pública no Brasil, bem como um novo espaço de defesa do direito à saúde e de combate à privatização do SUS, maior sistema público de saúde do mundo!




Há trinta anos surgiam, com uma nova Constituição, o Sistema Único de Saúde e a política pública brasileira mais estruturada e participativa – ambos agora ameaçados. Fruto de uma longa batalha, que se confunde em parte com as lutas contra a ditadura, o SUS vive uma encruzilhada. A Emenda Constitucional 95 corroerá, enquanto não revogada, as bases de sua existência Desde 2016, o ministério da Saúde age, agora abertamente, em favor das lógicas mercantilizantes. A mídia apoia. Mas, embora poderosas, as forças privatizantes são rejeitadas pela maioria da população. E, entre os que atuam em favor da Saúde Coletiva, há um esforço nítido de rever velhos erros e buscar novos rumos.

Neste cenário, Outras Palavras lançou acaba de lançar Outra Saúde, um site dedicado ao jornalismo de profundidade e de combate. Realizado por duas jornalistas experientes e implicadas no tema – Maíra Mathias (editora) e Raquel Torres –, Outra Saúde entrou no ar nesta segunda-feira, 19/2. Tira proveito de nossa experiência editorial. Oferece informações e análises inéditas. Ao mesmo tempo, agrega: reúne material produzido por outras fontes e que, embora muito valioso, permanecia disperso. E inova: apresentará, todas as manhãs, uma resenha das informações indispensáveis para quem luta pelo Direito à Saúde.


MATERIAL PROFUNDO E INÉDITO

O novo site nasce do melhor jornalismo. Maíra Mathias e Raquel Torres debruçam-se há anos sobre os dilemas da Saúde Pública. Escreveram dezenas de reportagens e análises a respeito, em especial nas revistas da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). Toda semana, Outra Saúde publicará ao menos uma reportagem de produção própria, que ajude a destrinchar questões atuais e polêmicas. As agruras do SUS. Os riscos de privatização e a resistência da população e do setor. Os percalços dos usuários dos planos privados. As disputas no Congresso e no Judiciário.

O primeiro texto está no ar. Em reportagem especial, Maíra Mathias examina em profundidade as crises emblemáticas de dois dos maiores sistemas de Saúde Pública do Ocidente: o SUS brasileiro e o NHS britânico. Ao refletir sobre a situação nos dois países, e dialogar com estudiosos de seus serviços, a editora chega a duas conclusões perturbadoras – mas também a algum alento. Sim, o direito universal à Saúde, esta conquista humana do pós-II Guerra, pode estar se desfazendo, vítima do capitalismo financeirizado e suas políticas de “austeridade”. Sim, a situação é bem mais grave em países periféricos como o nosso, onde o acesso de ricos e pobres aos mesmos tratamentos nunca foi assimilado.

Mas – aqui, a esperança – a crise não é terminal. Os dados estão rolando. As populações continuam favoráveis, nos dois países, ao SUS e ao NHS. As percalços atuais podem resultar, também, na constatação de que os mecanismos de solidariedade têm de ser resgatados, corrigindo-se os erros anteriores dos sistemas. No Brasil, o principal deles sempre foi (como destaca nosso texto) a transferência de grande parte do atendimento a empresas privadas.

O esforço editorial não se limitará ao texto escrito. Ao longo do ano, uma série especial de entrevistas em vídeo investigará a situação do SUS e do Direito à Saúde. Um tema destacado abre a sequência: o risco de desregulamentação completa dos planos privados, a partir de projeto de lei em tramitação acelerada no Congresso Nacional. A ameaça é analisada, em seus múltiplos aspectos, por um grande estudioso do assunto: Mário Scheffer, professor da Faculdade de Medicina da USP e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Vale conferir.


A PODEROSA LÓGICA DA AGREGAÇÃO

Outra Saúde valorizará sempre a produção de material próprio e inédito – mas irá muito além disso. Servirá como agregador do esforço já realizado por diversas iniciativas editoriais que debatem o Direito à Saúde do pondo de vista jornalístico ou teórico. Um esforço prévio ao lançamento do novo site identificou dezenas de publicações alternativas valiosas, cujo conteúdo encontra-se até hoje disperso. Outra Saúde reproduzirá este material – sempre mencionando as fontes de origem e oferecendo link direto para elas.

Os primeiros resultados desta agregação já estão visíveis. O novo site abriga também cerca de quinze textos de publicações que prezamos. Alguns breves exemplos: Bruno Marchetti revela, em Motherboard, que os simpáticos descontos ofertados pelas grandes redes de drogarias aos clientes “fiéis” podem envolver quebra de sigilo médico e captura de dados – oferecidos aos planos privados de Saúde. Entrevistado pela IHU Online, o cardiologista Luiz Vianna Sobrinho aponta, com riqueza de dados, a tendência à mercantilização crescente do atendimento médico e da produção de remédios. Luiz Felipe Stevarin expõe, na Revista Radis, as ameaças de fim do programa Farmácia Popular e os dramas sociais que isso já acarreta.


INFORMAÇÃO ATUALIZADA PARA QUEM PRECISA AGIR

A luta pelo Direito à Saúde é, além de árdua, intricada. Os interesses privados são bilionários. A capacidade destrutiva dos grandes grupos empresariais, de seus lobistas e dos políticos ligados a eles não pode ser negligenciada. Tampouco é possível desconsiderar as ações dos movimentos sociais, deixar de incidir sobre as descobertas científicas e avanços técnicos, desconhecer as experiências internacionais.

Outra Saúde assumiu um desafio: produzir todas as manhãs um boletim que busca captar e sistematizar as novidades mais relevantes sobre o tema. O universo de pesquisa inclui centenas de publicações brasileiras e internacionais. A busca e a redação são feitas todos os dias, de madrugada. Por volta das 8h, o boletim é distribuído. Entre diversos outros assuntos, o desta quarta-feira aponta uma manobra do ministério da Saúde para reter recursos destinados a investimentos e custeio. Trata-se do envio de bilhões de reais , ao fim de cada ano fiscal, para a rubrica contábil de “restos a pagar”. Na virada de 2017 para 2018, por exemplo, foram R$ 13,6 bi – suficientes para custear 10,5 mil Unidades de Pronto Atendimento… Já ontem, o destaque era a entrevista do ministro da Saúde, Ricardo Barros, ao programa Roda Viva da véspera (“Vamos ter de conviver com a febre amarela… Vai acontecer todos os anos”). E a edição de terça-feira chamava atenção para o surgimento de clínicas de reabilitação para viciados em internet, nos EUA. Também alertava para a proposta “muy amiga” do diretor de Relações Institucionais do laboratório Roche, em artigo na Folha de S.Paulo (mais presença privada na Saúde Pública). E sugeria a leitura de uma série de reportagens sobre a intersexualidade, no site Nexo.

Cada edição do boletim informa sobre múltiplos assuntos – sempre com recomendações de leitura e os respectivos links. Vale (muito) conferir.


RESENHAS E AGENDA

A experiência de luta pela Saúde Pública no Brasil resultou, também, numa vasta produção teórica, que continua a se atualizar. Há diversas revistas científicas e acadêmicas de muita qualidade – a começar pelas publicações pioneiras do Cebes – o Centro Brasileiro de Estudos sobre Saúde. O novo site procurará resenhar parte deste imenso e importantíssimo material. Já no lançamento de Outra Saúde, está no ar resenha de Raquel Torres sobre estudo do IPEA que aponta, com base em vasta pesquisa, a inconsistência da proposta de “Planos Populares” privados de Saúde. O estudo destaca (e Raquel frisa), em especial, as consequências nocivas para o SUS.

Centenas de congressos, seminários, simpósios, mesas redondas e debates marcam a luta pela Saúde Pública. O site procurará destacar, numa seção específica, os mais relevantes.

OUTRA SAÚDE E UM NOVO JORNALISMO

O jornalismo comercial, todos sabemos, está em crise profunda. Reinventá-lo será tarefa de décadas. Dificilmente retornaremos às velhas redações da era industrial, caríssimas e ultra-hierarquizadas. É preciso sondar alternativas.

Outra Saúde expressa uma proposta. E se fosse possível estimular, entre a sociedade, um esforço permanente de informação recíproca? E se, ao invés de um número cada vez mais reduzido de “grandes” publicações, tivéssemos uma galáxia de iniciativas editorialmente muito consistentes, e financeiramente sustentáveis? Com Outra Saúde, oferecemos um pequeno experimento. Esperamos que você goste, leia, compartilhe, critique. Numa civilização em crise, é preciso inventar. Queremos sua companhia nesta aventura. 
 
Fonte: Outras Palavras 

sábado, 13 de janeiro de 2018

No próximo domingo (14/01/18), o programa TV Mulheres debate a situação das mulheres nos presídios do Brasil


Vai ao ar no próximo domingo mais uma edição do programa TV Mulheres, com a apresentação da companheira Perci Marrara, às 19h00 pelo Canal da Causa Operária TV no Youtube.

E o tema do programa será a evolução do encarceramento no Brasil como parte da política repressiva do Estado contra a população. Essa será a primeira de uma série de programas dedicados ao tema "Mulheres e Prisão", estando já previsto um debate sobre a maternidade nas prisões brasileiras.


O Brasil abriga uma das maiores populações carcerárias do mundo. De 2000 a 2016, o país teve um aumento de 700% de mulheres que foram condenadas e foram para a prisão. 60% dessas mulheres foram presas por causa de crimes relacionados ao tráfico de drogas, muitas delas assumindo a função dos companheiros que foram presos, ou que entraram no tráfico por meio de ameaça, coação e agressão por parte de seus companheiros.

E a situação das mulheres que estão presas, estão em condições de abandono por parte da família, 80% delas são mães, que deixam os filhos com os cuidados de parentes mais próximos. Lembrando que 43% das mulheres que estão presas no país atualmente ainda não tiveram seus casos julgados em definitivo.

Também serão debatidos no programa possíveis fatores que impactam a política prisional para as mulheres, suas opções e ausências, com a convidada Alessandra Teixeira, professora e pesquisadora da Universidade Federal do ABC (UFABC) na área de políticas públicas, autora do livro “O Crime pelo Avesso”.

O programa TV Mulheres é fruto das discussões do Coletivo de Mulheres Rosa Luxemburgo, que reúne interessadas (filiadas ao PCO ou a outros partidos, e também não filiadas a qualquer partido) no debate sobre o feminismo sob o ponto de vista marxista, e sobre questões que afetam e influenciam a vida das mulheres no Brasil. Desde novembro de 2017, todos os domingos às 19h, são debatidos temas pertinentes ao momento político e à situação das mulheres no país.

Para assistir ao programa, basta comparecer pessoalmente ao Centro Cultural Benjamin Péret (Rua Serranos, 90, Saúde, São Paulo/SP) ou acompanhar on line na Causa Operária TV pelo youtube (https://www.youtube.com/channel/UCEaXaeR0DL62WwRlR2EMxEQ) ou pelo facebook (https://www.facebook.com/causaoperariatv/).

Este programa é particularmente especial para mim, pois além de tratar de um tema intimamente associado à defesa de direitos das mulheres no Brasil traz como entrevistada a advogada com quem trabalhei no Hospital Central do antigo complexo penitenciário do Carandiru, defendendo o indulto humanitário para presas e presos portadores de AIDS, que muito admiro por sua força, militância na questão carcerária, e dignidade no trabalho com o Direito. 

Pra quem quiser conhecer um pouco melhor o trabalho da Alessandra Teixeira, deixo aqui o link de um artigo escrito por ela e por Hilem Oliveira, reunindo e analisando as pesquisas acadêmicas sobre a maternidade nas prisões brasileiras e elencando as questões mais importantes sobre a luta daquelas que são mães e mulheres no cárcere suscitadas nas pesquisas, chamado “Maternidade e encarceramento feminino: o estado da arte das pesquisas no Brasil: http://www.anpocs.com/index.php/edicao-atual/10571-maternidade-e-encarceramento-feminino-o-estado-da-arte-das-pesquisas-no-brasil/file

Então, convido a todos a participar conosco do próximo TV Mulheres, que promete um debate excelente!

Fonte de parte do texto: Diário Online da Causa Operária

 

Assista também os programas TV Mulheres anteriores:


PEC 181, golpistas planejam acabar com o direito ao aborto no Brasil: https://www.youtube.com/watch?v=jDcFfe6v5lk&index=1&list=PL6exWLai3Il0wA9fHrqu252JrjO1zvl5E 
 
A luta das mulheres por moradia com a Cia de Teatro da Investigação - CTI: https://www.youtube.com/watch?v=jorV22rvxHA&index=2&list=PL6exWLai3Il0wA9fHrqu252JrjO1zvl5E

Violência contra mulheres: mais um instrumento de opressão: https://www.youtube.com/watch?v=j3EbkfRJv54&index=3&list=PL6exWLai3Il0wA9fHrqu252JrjO1zvl5E

Mulher e trabalho: Arquitetura: https://www.youtube.com/watch?v=I2n7C2RqrJ8&index=5&list=PL6exWLai3Il0wA9fHrqu252JrjO1zvl5E 

Retrospectiva 2017 (neste programa a apresentadora Perci Marrara faz uma excelente análise sobre o "feminismo carcerário", entre outros assuntos): https://www.youtube.com/watch?v=BormsCNStmA&index=6&list=PL6exWLai3Il0wA9fHrqu252JrjO1zvl5E

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Aumento das tarifas de transporte público prejudica acesso dos cidadãos à saúde em São Paulo

O Movimento Passe Livre convocou uma manifestação contra o aumento das tarifas de transporte público em São Paulo anunciado pelos governos Doria e Alckmin (as passagens de ônibus e metrô subiram de R$ 3,80 para R$ 4,00), que ocorrerá hoje, dia 11 de janeiro de 2018, às 17h, no Teatro Municipal de São Paulo (Praça Ramos de Azevedo). 

Mas o que isso tem a ver com saúde, e por que nós militantes da saúde devemos comparecer e apoiar este protesto de hoje?

Há alguns meses conversei com a mãe de um menino com diabetes sobre a assistência farmacêutica excepcional do SUS, referente aos pedidos administrativos de medicamentos/terapias/serviços não integrantes do protocolos padronizados. Ela me contou que durante algum tempo recebeu as insulinas análogas da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, mas desistiu ao perceber que os custos com gasolina e estacionamento no dia de retirada eram superiores aos gastos com a aquisição por sua própria conta. Neste caso, a mãe possuia condições de custear o tratamento do filho. Mas e quem não tem? 

Quem não tem condições de custear seu tratamento depende da assistência do SUS. Em São Paulo, os pedidos administrativos à Secretaria do Estado da Saúde são recebidos apenas no AME Maria Zelia, no Belenzinho. A unidade é de fácil acesso, há vários ônibus no terminal de metrô que passam pelo posto. Fui duas vezes até lá usando transporte público - metrô e ônibus na ida, e ônibus e metrô na volta. Com as tarifas atuais, o gasto com transporte para o  protocolo do pedido de assistência farmacêutica excepcional no AME Maria Zélia seria de R$ 10,00, se o atendimento ocorresse em menos de duas horas (acarretando o pagamento de apenas uma pasagem de ônibus) ou R$ 12,00, se o tempo de espera para atendimento superasse duas horas. Isso para quem vive na região central de São Paulo como eu.

Nas duas vezes em que estive no AME Maria Zélia, conversei com pessoas no ônibus que também se dirigiam àquela unidade de saúde, algumas pela terceira vez já. Assim como eu, para conseguir efetivar o pedido administrativo de terapia excepcional, eram obrigados a retornar duas ou três vezes ao local em função de novas exigências de documentos em cada comparecimento, sem fundamento em norma técnica. No meu caso, os gastos com tranporte para efetivo protocolo do pedido de insumos e medicamentos seriam R$ 20,00 ou R$24,00 (2 vezes). Se outra evasiva da SES-SP fosse apresentada e eu precisasse retornar uma terceira vez, seriam R$ 30,00 ou R$ 36,00. E assim por diante. E isso apenas para protocolar um pedido!

Desta forma, temos que apoiar o Movimento Passe Livre e comparecer à manifestação de hoje, como forma de também garantir o direito à saúde dos paulistanos. Precisamos ir às ruas contra o aumento de tarifas do transporte público e levantar a palavra de ordem de Fora Doria, Fora Alckmin e abaixo o golpe!




Confirme presença no evento do facebook: https://www.facebook.com/events/222505838292601

Texto do Movimento Passe Livre de convocação para o ato:

4.00 REAIS! CONTRA O AUMENTO: DESOBEDIÊNCIA!!!

Querem nos fazer pagar ainda mais caro pelo que nem deveríamos pagar e NÃO É POSSÍVEL ACEITAR PACIFICAMENTE A EXISTÊNCIA DE UM OUTRO AUMENTO!

Por uma vida sem catracas!!!

Se ontem o prefeito empresário e seu padrinho governador anunciaram mais um aumento no transporte, hoje já avisamos que vamos travar resistência a tarifa! Dória e Alckimin esperavam um início de ano tranquilo? Vai ter luta na cidade!

Na mais pura amizade,João Dória e Geraldo Alckmin novamente deram as mãozinhas e anunciaram MAIS um aumento! Dessa vez, de vinte centavos na nossa já absurda passagem para o começo do próximo ano e ainda junto com o corte de muitas linhas que usamos todos os dias. Movimentar-se pela cidade, algo pelo qual não deveríamos ter que pagar, agora vai custar R$ 4,00 – QUATRO REAIS - e pra quem pega metrô e ônibus, vai para R$ 6,00. Nas linhas do EMTU, mais ainda!!!

No começo desse ano, Dória MENTIU (Dória sempre mente) ao dizer que congelou o preço da tarifa. Nao só, junto de Alckmin, aumentou o valor da integração em quase 1 real e reduziu as cotas do passe estudantil dos estudantes, como também aumentou os bilhetes temporais e mudou a ordem de cobrança para beneficiar ainda mais o bolso dos seus amigos empresários. A licitação do serviço municipal de transporte nem ao menos teve abertura pra ser discutida com a população! Mas temos a nossa proposta: Não queremos um transporte excludente, queremos tarifa zero pra geral!

AUMENTO NÃO!

Enquanto o governador e o prefeito se importam somente com o lucro dos seus amigos empresários, a cada vez que a tarifa sobe, aumenta o número de pessoas excluídas do transporte coletivo. Entre nós e a cidade (que nós mesmos fazemos funcionar!) existe uma catraca que cobra cada vez mais caro. É que para os de cima, ninguém tem que sair da periferia se não for para trabalhar ou - se tiver dinheiro - para consumir.

Por isso, no dia 11 de janeiro, agente vai dar feliz ano novo e falar pra esse prefeito e pra seu amigo governador que a gente NÃO VAI ACEITAR MAIS UM AUMENTO E NÃO VAI PAGAR QUATRO REAIS PELO TRANSPORTE!

TARIFA ZERO JÁ!